

Este começou por ser o blogue das minhas gravidezes.Nele descrevi momentos bons e maus na concretização desse grande sonho. Hoje em dia é um bocadinho da minha vida.



Entretanto eram 21h, mudança de turno. Disseram-me que a equipa que iria entrar ao serviço iria reavaliar a minha situação e, ou avançaria para a curetagem, ou até poderia tentar mais "uma dose" de oxitocina.
Aí começou o meu pesadelo.
Fiquei à espera que os médicos aparecessem...
Às 2 da manhã, já um pouco furiosa, pedi que, se não me iriam fazer a curetagem nessa noite pelo menos me dessem de comer. Às 2 e meia lá me trouxeram um leite, pão e bolachas. Os médicos...nem vê-los...`
Acho que por volta das 5 da manhã um enfermeiro (ou seria médico...nem sei) veio ver se eu estava a perder sangue, e como perdia pouco mandaram-me para o 4º piso - internamento de ginecologia, dizendo-me "de manhã desce para lhe fazerem a curetagem". ( Pelo que percebi estavam com falta de camas nas urgências/recobro).
Na manhã seguinte, perguntei quando descia. Pelo que uma enfermeira me respondeu : "Ah! Se calhar não desce de manhã, eles estão muito ocupados, têm 3 curetagens e 1 cesariana."
E eu???????? O que estou cá a fazer??????
Comecei a entrar em desespero e desatei a chorar. As enfermeiras, e as auxiliares foram queridas e tentaram animar-me. Não me deixaram sozinha... telefonaram e insistiram com as médicas de serviço, pelo que passado um bocado lá fui eu novamente recambiada para a urgência, onde me fizeram uma eco que confirmou a necessidade de fazer a curetagem.
As médicas pareciam zangadas pois o "turno da noite" tinha deixado 3 curetagens por fazer. (Os tais médicos "fantasmas").
Este dia foi terrível para mim, do ponto de vista psicológico. O que vale é que tenho a Pipa e as lembranças dela, da gravidez dela e do parto iam me dando força. Posso não voltar a passar por esse momento maravilhoso, mas já o tive, pelo menos uma vez na vida (até sou sortuda). E isso ajudava-me naquele momento, em que à minha volta, só via grávidas a dirigirem-se para a casa de banho para mudarem de roupa e ficarem internadas para terem os seus bebés. Ouvia os batimentos cardiacos dos bebés durante os CTG... era duro.
No entanto, o facto de já ter expulsado o bebé, e portanto já não o ter, morto, na minha barriga tb me ajudava do ponto de vista psicológico.
Continuava à espera...em jejum. Fartei-me de chorar. Tentava -me controlar, especialmente quando comecei a partilhar o quarto com uma grávida, mas estava a ser muito difícil. Só queria ir-me embora, sair dali e ir para casa abraçar a Pipoquinha. Já não a via desde 5ª de manhã e nunca tinha estado tanto tempo sem ela. Nem falar ao telefone, com ela, podia pois não me deixaram ficar com nada meu.
As enfermeiras eram umas queridas, ouviam os meus desabafos, tentavam animar-me fazendo-me perguntas sobre a Pipa. Sempre que podiam, chamavam o Rui para me vir dar um miminho. E ele lá ficava comigo até alguém o mandar embora. (Ainda tentámos ligar à minha mãe para saber notícias ou falar com a Pipa, mas não tinhamos rede no quarto).
Éramos 3 para fazer curetagem. Quem seria a primeira?
As outras duas foram primeiro que eu. Apesar de terem entrado no Hospital depois de mim, mas perdiam mais sangue e o meu caso parecia estabilizado.
Da porta do meu quarto via -as a entrarem e a sairem do bloco operatório... estava ansiosa, e nervosa, à espera da minha vez.
A última saiu... Finalmente sou eu, pensei.
Mas, chegou uma grávida em trabalho de parto com a dilatação toda feita e um bebé transverso. Cesariana de emergência... as médicas e anestesistas começaram a correr em direcção a outro bloco.
Fiquei desiludida, mas compreendo perfeitamente o facto de eu ter ficado para trás... há situações muito mais importantes, e a vida daquele bebé e daquela mãe são muito mais importantes do que o meu sofrimento psicológico.
Durante umas horas parecia não existirem médicas na urgência do hospital. Já não chamavam ninguém que estava à espera para ser atendido nas urgências nem se viam a andar de um lado para o outro, nos corredores.
E eu continuava à espera...nesta fase estive mais calma, tive a companhia do Rui e sabia que a seguir seria a minha vez.
Mas, a cirugia acabou...e eu continuava à espera.
Estava sempre a perguntar às enfermeiras quando era a minha vez. Elas diziam-me para ter paciência... uma delas dizia-me que estava a pressionar as médicas para me atenderem. As próprias enfermeiras pareciam solidárias comigo e compreendiam o meu sofrimento.
Perto das 19 horas vêm-me dar más noticias : "já não me iam fazer a curetagem".
Desesperei. Disse que me queria ir embora, o que estava ali a fazer desde a véspera e em jejum??? Já pensava sair dali e ir a uma urgência de outro hospital ou até para o privado e pagar pela curetagem...já não aguentava mais a pressão psicológica.
O Rui entretanto apanhou também uma das médicas e começou a refilar.
O que é certo é que 5 minutos depois, já eu estava no bloco operatório. FINALMENTE às 19.30 era a minha vez de acabar com este sofrimento.
Ainda tive um ataque de choro na sala de operações. Não era só pela tensão que sentia e pela vontade de sair dali, mas era o facto de comparar esta situação ao primeiro aborto que fiz, nesse caso no HGO, em que estava de mais tempo de gravidez, mas tinha uma "CUNHA" no Hospital e isso, INFELIZMENTE no nosso país, parece fazer toda a diferença.
As médicas anestesistas foram super queridas, lá me acalmaram e adormeci.
Finalmente acabou!!!
Quando acordei da anestesia parecia outra pessoa. Voltei a ter força. Voltei a ter esperança no futuro. Voltei a sorrir.
Quase que tive alta no sábado às 11 da noite, mas o facto de ter perdido muito sangue, na véspera na altura da expulsão, e a minha tensão estar a 7-3, não me deixaram sair. Fizeram uma análise ao sangue, mas felizmente não precisei de levar trasnfusão.
Saí domingo de manhã. :-)
Agora ainda estou a recuperar fisicamente. Sinto-me cansada. Não tenho fome. E ando enjoada (especialmente à noite), não sei se ainda não serão enjoos provocados pelas hormonas da gravidez.
Psicologicamente vou estando melhor. Já me adaptei à ideia de que já não estou grávida. Apesar de me sentir muito triste,de vez em quando, mas o tempo há-de curar... cura tudo!!
E não vou desistir!!!! Vou fazer exames e tenho esperança de poder voltar a tentar engravidar. E essa esperança dá-me força e anima-me.
Se tiver que desistir...pelo menos tenho a minha querida filhota que ADORO!!!!!!!!!!!!
E desculpem o testamento.......

Há dois anos foi assim...
Aqui está uma foto dela a brincar com o primo.
